E ainda tem gente que ganha COMENDA
com a desgraça de outros.
A paz teima em não chegar a Cachoeirinha. Cidade registrou aumento de 700% no número de mortes em relação a 2010 Eduardo Torres, Especial O intervalo de tempo é o mesmo, de 1º de janeiro até 14 de março. Se em 2010, a Zona Norte de Cachoeirinha registrou apenas uma morte nesses 73 dias, este ano o número teve um acréscimo assombroso, chegando a oito – um aumento de 700%. Além disso, a morte do jovem de 20 anos, executado na noite de segunda-feira, confirma o drama da presença do crack. Sete desses crimes ocorridos envolviam usuários ou traficantes da pedra. Curiosamente, a região que sofre com uma onda de violência é um dos Territórios da Paz – programa do governo federal que faz parceria com as prefeituras – na Região Metropolitana. Mas grande parte das atividades e dos projetos ainda não entrou em funcionamento. No muro do beco que leva ao casebre, está pichado: Júnior Vida Loka. Era como um recado indicando como o crack transformou a vida de Júnior César Rodrigues Alves. Aos 20 anos, era usuário da droga e com antecedentes por tráfico. Foi executado às 22h de segunda-feira por dois homens que chegaram atirando na Rua Caí, Bairro Cohab. Atingido no peito, Júnior ainda correu até quase a porta de casa. – Ele era usuário, mas tenho certeza que não devia nada para ninguém – diz a irmã, Jéssica, 19 anos, que o amparou, para depois desabafar: – Preferia que ele saísse algemado daqui e não dessa forma. - Programa dava resultados Se o destino do irmão foi inesperado para Jéssica, também deveria ser para as autoridades. O assassinato aconteceu em uma das áreas classificadas como Território da Paz, na Zona Norte de Cachoeirinha, e voltou a escancarar a trágica estatística deste ano. Foi o oitavo homicídio de 2011 no município, todos na mesma região. Em pelo menos sete casos, o crack serve como pano de fundo. No início do ano passado, o programa federal parecia dar resultados na cidade. Até a metade de março de 2010, só um homicídio havia sido registrado. - Faltaram denúncias Apesar da característica de execuç ão, geralmente inevitável, este crime poderia ter sido impedido se a atuação da polícia comunitária – prevista pelo Território da Paz – já existisse na região. Na verdade, a BM e policiais civis monitoravam Júnior havia cerca de um mês, mas dependiam de denúncias para uma possível prisão. - Parentes temem os assassinos De acordo com os investigadores da 1ª DP, Júnior estaria envolvido com o tráfico e teria sido morto por supostos inimigos. O que os parentes e vizinhos temem agora é que os criminosos sejam mais rápidos do que a polícia. Na manhã de ontem, os mesmos motoqueiros que atiraram em Júnior voltaram ao beco à procura do primo dele. Por outro lado, até aquele momento nenhum investigador havia ouvido testemunhas do crime ocorrido na noite. - Mais mortes, menos repressão Se os números de homicídios disparam em Cachoeirinha, um levantamento da Secretaria Estadual da Segurança Pública mostra que a repressão diminuiu. Em média, o 26º BPM registrou um caso de tráfico ou posse de drogas na cidade por dia em 2010. Neste ano, foram 27 registros até a metade de fevereiro – uma média de uma ocorrência a cada dois dias. De acordo com o chefe de investigação da 2ª DP de Cachoeirinha, Dilson Prestes, não há qualquer indício de que haja modificação na realidade do tráfico desta região: – Não há grandes traficantes, só pequenas bocas. O que está acontecendo agora é a consequência disso. - “Não depende só da ação policial” Segundo ele, o comparativo entre os homicídios nos dois anos mostra um quadro cíclico, não necessariamente um aumento da violência. – Evitar este tipo de homicídio não depende só de ação policial. É preciso uma ação conjunta da sociedade – acredita o comandante do 26º BPM, tenente-coronel Antônio Carlos Sarti. Ele salienta que ações de prevenção ao uso de drogas, como o Proerd e uma adaptação para adolescentes do programa, atenderam 750 menores de idade no ano passado. O problema, segundo o oficial, está entre os que já fazem parte do crime há mais tempo. Só na Zona Norte de Cachoeirinha, por exemplo, Sarti afirma que um foragido é capturado a cada dois dias. - As vítimas - Em 2010, Cachoeirinha registrou 18 homicídios, o primeiro aconteceu no dia 2 de março. Uma média de 1,5 homicídio/mês. - Em 2011, foram registrados sete homicídios nos dois primeiros meses do ano – o oitavo foi na segunda-feira. A média de janeiro e fevereiro ficou em 3,5 assassinatos/mês. Os homicídios - 10/1 – Osvaldo Moreira Bastos, 28 anos, foi encontrado morto a tiros na Rua Goiás, Vila Anair. Era usuário de drogas. - 12/1 – André Vinícius Bitencourt da Silva foi executado na esquina entre a Avenida José Brambila e a Rua Curitiba. Estaria envolvido com o tráfico de drogas. - 17/1 – Marco Antônio Marques, 38 anos, foi morto dentro da sua Kombi na Rua Nélida Passos Dias, Granja Esperança. Não teria envolvimento com as drogas. - 10/2 – Marcelo José Vilk da Silva, 34 anos, foi morto na Rua Canela, Vila Anair, com uma faca em uma das mãos e uma nota de R$ 5 em outra. Era usuário de drogas. - 11/2 – Paulo Roberto de Souza Apolo, 29 anos, foi morto pelo próprio irmão, a facadas, em sua casa na Rua Palmeira, Vila Anair. Os dois eram viciados em crack. - 16/2 – Rosimeri Farias, 46 anos, foi encontrada enterrada nos fundos da casa do namorado, na Avenida Cristóvão Colombo, Vila Anair. O principal suspeito é o namorado, Otelio Agostinho de Paula Borges, 56 anos, que já teve prisão preventiva decretada. Ela era viciada em crack. - 19/2 – Paulo Fernando Coelho, 25 anos, foi morto a tiros pelo próprio avô durante uma crise de violência pelo uso de crack, na Rua Cerejeira, Bairro Jardim do Bosque. - 14/3 – Júnior César Rodrigues Alves, 20 anos, foi morto a tiros na frente de casa, na Rua Caí, Bairro Cohab. Era usuário de crack e tinha antecedentes por tráfico. A polícia suspeita que ainda traficasse. - Pelo menos o posto da BM chegou No papel, a Zona Norte já é um Território da Paz, mas a realidade está longe de uma transformação. Só a partir do final de fevereiro, por exemplo, a dona de casa Rosa Ribeiro, 56 anos, teve um pouco mais de tranquilidade na Vila Anair. Foi quando um posto móvel da BM passou a atuar na localidade. – É bem melhor com eles ali. Dá uma sensação maior de segurança – diz. Pudera. O marido já foi assaltado duas vezes. Há alguns dias, um dos homicídios aconteceu exatamente na rua em que ela mora há 16 anos: – Cada vez fica pior a nossa situação. De acordo com o tenente-coronel Sarti, a ideia é atrair a comunidade para colaborar com a polícia. E a partir daí, com o serviço de inteligência, mapear os locais de venda de drogas. A presença da BM deu resultado pelo menos na vila, considerada o local mais crítico no Território da Paz. Desde a implantação do posto, não houve novos homicídios ali. O TERRITÓRIO DA PAZ NA CIDADE O que funciona - Mulheres da Paz – Desde setembro do ano passado, 150 mulheres estão em treinamento para se tornarem uma espécie de conselheiras locais e mediadoras de conflitos. O treinamento, porém, só termina em agosto deste ano. - Câmeras – A cidade está equipada com 28 câmeras de videomonitoramento. Pelo menos quatro delas estão exatamente no perímetro mais violento da cidade, nas proximidades da Vila Anair. Mas a ação dos traficantes não foi inibida. - Programa de Esporte e Lazer da Cidade (Pelc) – Foram seis meses de atividade de esporte e lazer na comunidade da Zona Norte, encerrados no final do ano. Possivelmente serão retomados. O que não funciona - Protejo – Um programa de acolhimento que deveria atender 300 jovens em situação de vulnerabilidade social ou em cumprimento de medida socioeducativa desta região. Chegou a pouco mais de cem no ano passado, mas houve desmobilização e não foi reiniciado. - Comunidade Terapêutica – O projeto pioneiro de Cachoeirinha de criar uma comunidade terapêutica pública para tratamento de dependentes químicos enrola-se há mais de dois anos. O município afirma que 98% do projeto está pronto, e a previsão de inauguração é 2 de abril, com a abertura de 30 vagas. - Justiça Comunitária – Foi anunciada uma ação de Justiça aproximada na comunidade no final de 2009, mas não saiu do papel. Houve tentativas de convênios pelo município, que não vingaram. - Postos de Segurança – Outra promessa era a criação de postos de segurança integrados entre a Brigada Militar, Polícia Civil e Guarda Municipal na Vila Anair. Só há uma unidade móvel da BM. - Praça da Juventude – Um espaço projetado para o convívio e as oficinas esportivas na comunidade, que é a marca do Território da Paz em outras cidades. A prefeitura aguarda liberação do financiamento pela Caixa Econômica Federal para abrir licitação (concorrência pública). Previsão era de lançamento ainda neste mês. Outra praça deve ser criada na Vila Anair, mas ainda sem prazo. |
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